O cigarro levou um imortal (João Ubaldo Ribeiro)

20 jul

Um depoimento precioso do escritor João Ubaldo Ribeiro sobre o vício que o matou. Estamos fazendo o suficiente para combater o tabagismo?

 

Perdemos nesta sexta-feira (18) o escritor e jornalista João Ubaldo Ribeiro, imortal da Academia Brasileira de Letras. Aos 73 anos, Ribeiro morreu de embolia pulmonar em sua casa, no Rio de Janeiro. A doença foi provocada pelo cigarro. O escritor baiano fumava desde a adolescência.

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Em 2008, o autor de “Viva o povo brasileiro”deu um depoimento à Rádio Pulmão Bom, do Centro de Apoio ao Tabagista. A rádio é uma das tantas iniciativas do pneumologista Alexandre Milagres, um ativista e comunicador que não mede esforços para combater o mais grave problema de saúde pública em todo o mundo.

Alexandre está inconsolável. “O cigarro levou mais um amigo”, diz. “Não consegui que ele me permitisse ajudá-lo a parar de fumar”. O vídeo de 22 minutos, disponível aqui, é um registro precioso e sincero sobre a longa convivência de Ribeiro com o vício.

“Tenho que parar de fumar, mas isso é um esforço terrível”, diz o escritor, no áudio de 2008. “Reconheço minha condição de viciado, mas não consigo parar. Vou fumando. Disso não tenho o menor orgulho.”

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Na juventude de Ribeiro, poucos escaparam do cigarro. Socialmente, fumar não era apenas aceitável. Era também desejável. Ele conta que começou a fumar para impressionar uma namorada, um ano mais velha e fumante.

Certa vez, enquanto namoravam no batente do edifício, ela perguntou a uma amiga.

– Lourdes, você tem um cigarro? Aqui é contrário. A mulher é que fuma, não o homem.

“Vi ali uma denúncia de minha mal delineada masculinidade”, conta ele. Desde aquele dia, Ribeiro começou a fazer força para se viciar. Colocava na boca um cigarro Columbia, e mesmo enjoado, tentava ficar à altura da namorada.

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publicidade e o cinema foram as principais estratégias da indústria tabagista para viciar aquela e as gerações seguintes. Abandonar o cigarro não é impossível, mas é uma tarefa árdua.

Outras personalidades brasileiras contaram a ÉPOCA, em texto e vídeo, como conseguiram parar de fumar. Nesta outra reportagem, a polêmica recente sobre o cigarro eletrônico.

Como recorda Ribeiro, nos filmes de guerra dos anos 50 era comum ver um sargento tirar um cigarro da própria boca e oferecê-lo a um combatente agonizante. “Antes de morrer, o herói de guerra recebia o cigarrinho da saideira.”

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Nada disso seria aceitável hoje. Nas últimas décadas, houve muitos avanços na conscientização sobre os males do tabagismo e na aprovação de leis para inibir a propaganda e o consumo de cigarros. Com 25 milhões de dependentes de nicotina, o Brasil precisa avançar muito mais.

Para início de conversa, é preciso retirar a discussão sobre tabagismo do âmbito do estilo de vida e colocá-la onde sempre deveria ter estado: o das drogas.

>> Brasil ainda tem 25 milhões de fumantes

Em 2008, a função respiratória de Ribeiro já estava comprometida. Ainda assim, ele acreditava ser um homem de sorte por não ter sido atingido brutalmente por doenças graves provocadas pelo vício. “Bato na madeira e me benzo quando digo isso”, afirmou ele. Estamos fazendo o suficiente para evitar 200 mil mortes como essa todos os anos?

(Cristiane Segatto escreve às sextas-feiras)

 

Fonte: http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/cristiane-segatto/noticia/2014/07/o-bcigarrob-levou-um-imortal.html

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